Os ramos da árvore de Roth estão podados neste Animal Moribundo, distinguindo-se os que carecem de solidão, pelos instintos vingativos. Contudo, se é assumido como ridiculo um homem de 62 anos pensar intermitentemente numa criança de 24, não serão tantas páginas sobre sexo lidas por comiseração para com o escritor septuagenário. Falar de amor, é possível fazê-lo de várias maneiras, para solucioná-lo há que fazer estragos. E o livro parece carecer de uma explosão, que chega perto do final, com Consuela, menosprezada quase sempre, a despertar dentro do protagonista. Cru, mortal, como de costume, Roth serve-se ainda das punchlines, que em duas linhas resumem a vida.

Paris, Je T'Aime, um filme colectivo dedicado a Paris, é um solene testamento ao amor. Das pedras exacerba-se um calor humano que é transmitido por quase todos os realizadores para o ecran. As peças mais interessantes são as dos irmãos Cohen, Christopher Doyle, Sylvain Chomet e Tom Tykwer. Diferentes perspectivas sobre algo tão pessoal, recomendável.

Dirigido por Robert Altman, Shortcuts não é um mau filme. Mas ver três horas seguidas de trivialidades, não está ao alcance (felizmente) de qualquer um. Supostamente seria uma análise aos niveis de relação que estabelecemos, mas fora a propaganda, trata-se somente dum filme sobre miséria moral. E tem cerca de vinte e cinco actores a disputar o papel principal, não havia mais ninguém em Hollywood.

Esta entrada dupla serve para dois artigos relacionados com skate. O primeiro, um livro de Sean Mortimer chamado Stalefish, é um conjunto de entrevistas 'as figuras que iniciaram nos anos 60, aqueles que continuaram nos 70, os que tiveram sucesso nos 80 e são hoje admirados pela audácia e perseverança 'a modalidade. Todos os "clássicos" são entrevistados, Lance Mountain, Stacy Peralta, Tony Alba, Tony Hawk, Russ Howell, Kevin Harris, Rodney Mullen, bem como Daewon Song, Bob Burnquist e Mike Vallely.
Em vez de longas entrevistas aos skaters condensadas num livro, elas são antes organizadas por temas, reunindo as opiniões de cada um, proporcionando uma leitura muito excitante, bem como uma lição de história por quem o fez. O final do livro acaba numa reflexão dos anos 90 e o dominio que o street fez sobre as formas clássicas como o pool, vert ou freestyle.

Também interessante é o video Live From Antartica da Heroin. Juntando vários skaters Ingleses e Japoneses maioritariamente, tem partes filmadas em todo o mundo. Obviamente que o nível não é o de uma companhia Americana, mas ganha bastante em personalidade, com os spots na Europa que nem sempre se vêm em videos. Com uma capa desenhada por James Jarvis.

Um conceito de Alan Freed, este Rock, Rock, Rock não é um filme, apenas uma mostra de um catálogo de artistas a cantarem. A história que tentam contar, de uma rapariga que quer um vestido para ir a um concerto de rock n roll, quase nem ocupa tempo nenhum, sendo uma sucessão de artistas dos anos 50 como Chuck Berry ou The Moonglows.

Myspace

Sicko, mais um documentário de Michael Moore, desta vez a atacar o sistema de saúde Americano. Não me compete a mim fazer julgamentos acerca da generosidade ou caridade dos Americanos, mas por uma experiência próxima, estou a par de quem tem de lidar com este problema que ninguém no mundo devia ter de lidar, o de estar doente e isso ser um problema pessoal. O filme podia ser uma critica e servir o propósito de mostrar ao mundo que os Americanos permanecem perante uma injustiça, com tentativas falhadas de mudança, mas a mestria em que ele mostra outras realidades, faz com que seja uma crítica introvertida. Ao analisar os Canadianos e os estigmas, Moore vai longe, mas ao mostrar as realidades Francesa e Inglesa, com cidadãos Americanos a bradarem os sistemas de saúde nacionais, o ponto fica provado: a América, tal como em muitas outras coisas, está claramente em desvantagem.

Uma retrospectiva dirigida por Scorcese que tem Bob Dylan a relatar os seus passos desde o Minnesota até ao sucesso na era eléctrica dos anos sessenta. Com várias personalidades da época, bem como a constante ligação ao papel social do cantor, que ele tentava descartar, No Direction Home é bastante completo, sendo talvez até longo demais nesta versão em dois discos, não sendo preciso mostrar tanto da faceta de entrevistado complicado de Dylan.
Fora isso, Scorcese junta várias imagens da época, tanto de concertos como de outros acontecimentos, numa homenagem justa a esta lenda Americana.

Esta obra colossal de 1959, dirigida por William Wyler é um épico em todos os sentidos. Ben Hur conta a história de um Judeu (Judah Ben Hur, claro está), que depois de confrontado por Massala, do lado Imperial Romano, acaba traído e enviado para um barco, sem saber se a sua mãe e irmã são mortas em consequência do caso em que ele foi incriminado. Acaba por cair nas boas graças do comandante do navio e é libertado, confrontando de novo Massala. Charlton Heston é fantástico, num filme que dura quase quatro horas, balançando entre a compaixão e a vingança. Felizmente que não haviam revolveres no Império Romano, ou o filme durava apenas 10 minutos.
Neste episódio bíblico, o fim quase que compromete esta produção gigantesca, pois os pequenos suspiros que se ouviam de um tal de Belém que vai ser crucificado, dão origem aos milagres e delírios que já toda a gente sabe serem tão certos como o Benfica ser campeão na próxima época.
Ao ver o filme, pensei que certas cenas, bem como a banda sonora, me pareciam muito semelhantes ao Star Wars, e a inspiração de George Lucas neste filme de 1956, afinal confirma-se segundo esta página.

Esta aventura conjunta de Dj Shadow com Cut Chemist teve transposição para DVD (com um CD bónus). Product Placement foi o nome dado 'a tour que os levou pelo mundo todo, e em vez de ser apenas uma gravação de um set, este lançamento tem imagens de seis datas da tour. Isso é possível dado que eles não estou a tocar de improviso, mas seguindo uma ordem já estruturada, apresentando o mesmo produto todas as noites, o que aqui é uma mais valia. Feito apenas com 45 rotações, este set versam sobretudo em funk dos anos setenta, incluindo algum rock e hip hop, mas aqui em minoria. Se com os close ups de camera podemos ver algumas habilidades da dupla mais de perto, a vertente visual é claramente suplantada pelo lado sonoro, pois são dois mestres a executar a sua arte ao vivo. Contém também alguns interlúdios, como eles a procurar vinys em lojas. Muito groove.

Este Bring The Noise do jornalista musical Simon Reynolds, editado no ano passado, compila vinte anos de artigos de rock e hip hop, como descrito na capa. Ele, como Britânico, captura muitos momentos da musica de dança, mas que acompanhou apenas 'a distância, pois vive em N.Y. desde 1994. Se a influência do ragga, dancehall no 2-step, garage, o nascimento do grime, a explosão do drum 'n bass são acompanhadas, não é ainda assim possível esquecer que Reynolds é no fundo um individuo com os horizontes muito limitados. Sim, ele pode achar que os So Solid Crew foram pioneiros, mas isso é o melhor que o grime tem? Os quase quinze anos conferem o estatuto de obra prima ao primeiro album de Roni Size, mas foi a unica coisa que houve? E desde então, está tudo mesmo morto?
Existe mesmo uma ignorância muito grande, as peças apresentadas são quase todas do Melody Maker, onde Simon Reynolds debate a grandiosidade de Morrissey mil vezes (risos), tenta passar Mantronix e T. La Rock como vanguardistas do hip hop e soberanos, entre outras atrocidades. A adoração aos Public Enemy, bem como a necessidade de lhes atribuir o racismo só é superada quanto afirma que o LL Cool J seria o melhor rapper de sempre.
No universo dele, acredito que isto seja um livro brilhante, mas felizmente em vinte anos de musica, muito, muito mais se passou.

Honoré de Balzac tem a virtude de conseguir que este pequeno livro, Os Funcionários, com mais de 150 anos se mantenha tão actual, tendo em conta as mudanças que a sociedade faz numa década, quanto mais num século.
Balzac discorre sobre o ridículo em que o funcionário se tornou, bem como a validade e variedade destes trabalhadores, que se assemelham com máquinas em vez de homens. Este trabalho repetitivo leva a que cada funcionário tenha outra ocupação, não os tornando nem assim mais interessantes, apenas braços do Estado. Fazendo uma análise cuidada, aliando humor, é um livro muito interessante.

Escrito quando Hemingway tinha apenas trinta anos, O Adeus 'As Armas relata a experiência da primeira guerra mundial que o escritor Americano viveu na primeira pessoa. Para além das descrições de guerra, o que prevalece acaba por ser a história de amor com Catherine, uma enfermeira com quem Henry pretende casar-se. Este, vê o amigo morrer numa explosão, ele próprio é ferido, perde um filho que nasce morto, e a mulher.
Infelizmente, finaliza assim, sem se saber o desenvolvimento após a guerra, mas não deixa de ser um livro fascinante, com Henry, pouco interessado em algo, a perder tudo.

A edição da Relógio de Água com seis contos de Tchékhov é muito bem vinda. Traduzida por Nina e Filipe Guerra, mostra um escritor com uma voz ímpar, num estilo que mistura humor com tragédia, de uma forma acessível mas rebuscada.


As duas boas adaptações d'O Drácula de Bram Stoker chamam-se Nosferatu. A original, de F.W. Murnau é um clássico do expressionismo Alemão, realizado em 1922, e se esta é inovador nos planos e retém a glória de trazer a esta obra a publico, a versão de 1979 de Werner Herzog aumenta-lhe a grandeza. Sem cair nos trejeitos de filmes como a Criatura da Lagoa Negra ou A Mumia de Boris Karloff, é um filme realmente assustador, que dá outra dimensão ao livro de Stoker. Com grandes interpretações individuais, destaca-se Bruno Ganz no papel de Jonathan Harker. A história fá-lo ir aos montes Cárpatos vender uma casa na cidade, que no isolamento e contacto com o Drácula, acaba por servir de catalisador 'a peste negra, que dizima a pequena vila de Wismar.
Se Murnau faz uso duma banda sonora hipnotizante para o filme mudo, no de Herzog os diálogos e vozes conferem ainda mais dramatismo.

Se em termos estéticos é irrepreensível, a história de Belleville Rendez-Vous tem várias falhas de guião e parece mal construída, aliada a uma fraca sonorização, sendo o filme de Sylvain Chomet um monólogo de um cão a arfar.

O Som e a Fúria de William Faulkner faz parte do programa escolar Americano, mas a tradução portuguesa é sofrível, tornando impossivel a leitura. É uma história contada de quatro formas diferentes, mas para ser honesto, nada é excitante em Faulkner. E começar o livro com um retardado mental a narrar uma história incompleta, não ajuda em nada.

Por outro lado, parece que As Horas de Michael Cunningham é um bom livro, que até ganhou o Pulitzer. Parece que conta três histórias que misturam a América e Virginia Wolf. Parece que adjectivos não servem para o descrever. A mim parece-me sofrível.

As Perturbações do Pupilo Törless explora a vida num internato de quatro rapazes, os opressores, Beineberg e Reiting, que ao intimarem com Basini, mais frágil e dependente, se acham com uma autoridade moral para lhe ordenarem o que bem entendem. A personagem principal, Törless, vive então neste internato, no meio duma turma, quase como que espectador, pois assiste impávido a tudo, é condescendente, mas mantém uma opinião, que ao longo desta brilhante obra se vai acentuado nas suas manifestações, até que extravasa os limites do seu pensamento e alinha-se com Basini, na tentativa de compreender o enigma pessoal, o motivo de sentir misericórdia por Basini e nojo ao mesmo tempo pela sua submissão, e também o que move Basini. Entretanto, Törless cresce ao longo do livro, acabando como um homem confiante que enfrenta um auditório mais idoso, uma sombra do rapaz que tinha medo de viver no internato. Robert Musil é brilhante, somente isso.
Muito interessante o site Maps Of War, que através de simples animações gráficas mostra a evolução de vários conflitos.
O primeiro, mostra a evolução dos impérios desde 3000 A.C. Outro muito interessante é aquele que retrata os avanços e recuos da II Guerra Mundial em pouco mais de um minuto, sendo muito util.

Por fim, fica aqui um para testarem sem ir ao site, que mostra a génese das religiões.



Maps of War

Ana


Seguindo o andamento de ontem, hoje foi a altura do Anna Karenina, também de 1997, ser visto. Uma adaptação do clássico de Leo Tolstoy por Bernard Rose, que segue a introdução de Anna (Sophie Marceau) no circulo social, ainda casada, até 'a sua trágica morte, abandonada pelo antigo amante. Os cenários de S. Petersburgo são sublimes, bem como a banda sonora que reaproveita peças de Tchaikovsky e Prokofiev, entre outros.

A adaptação de 1997 do fantástico Lolita, não tinha muito por onde falhar, dada a qualidade da matéria prima, executada por Nabokov. A história, uma queda anunciada recheada de fatalismos, onde o professor Humbert dialoga consigo próprio, antecedendo e explicando-se perante um juri imaginário, mostrando que existe uma natureza para a sua fixação numa menor de idade que acaba por ser ainda mais devassa e lhe escapa. Fantástica interpretação de Dominique Swain como Haze, 'a data apenas com dezassete anos, que num papel destas caracteristicas, mostra uma maturidade intimidante.

Do ano passado, Caramel é uma produção Libanesa que mostra a vida de cinco mulheres na capital, Beirut. Dirigido pela actriz principal Nadine Labak, vale apenas pela curiosidade, pois não inova em nada.


Esta(s) História(s) do Cinema de Jean Luc Godard, divididas em 8 partes, são um suplício de assistir. Sim, Godard fala de Howard Huges e Irving Thalberg, mas é tudo tão disconexo, e os efeitos "de vanguarda" que colam esta história soam tão datados e repetitivos que tiram qualquer prazer de ver este documento histórico. Pode ser muito completo em referências, mas de que serve isso se o produto final é pura e simplesmente desinteressante?

É o que posso dizer sobre este Murphy do Samuel Beckett. A linha narrativa segue variados trilhos, entrosando as personagens 'a volta de Murphy, acabando numa tragi-comédia. Laureado com o Nobel em 1969, este é um livro pesado, mas que agarra o leitor do principio ao fim. É o primeiro romance publicado de Beckett, onde cada linha é uma obra de arte, sendo Beckett um dos últimos modernistas. A vida de Murphy e as relações que se tecem 'a sua volta, criando admiração e carinho por tal personagem, acabam com a sua morte, indefinida como os jogos de xadrez entre Murphy e o paciente Mr Endon.