Narrado por várias personagens que querem aproveitar a vida, O Duelo de Anton Tchékhov foi escrito em 1891. Dois amigos relaxam no mar e um confessa já não amar a mulher, pelo que precisa de ajuda para a deixar, pois conhece outra. É-lhe dito que mais que amor, passados uns anos, é preciso paciência. No Caucaso, procuram todos o inédito, que lhes traga alguma agitação. Em casa do mais sensato, que não demovia o amigo dos sentimentos odiosos pela actual mulher, comiam um diácono e um zoólogo. Este último odeia o ausente por dezenas de motivos. A mulher que tentara deixar estava também envolvida com outro homem, ainda que se arrependesse, e todas as personagens se juntam num piquenique, que obviamente não corre bem. As desconfiaças existem também no lado das mulheres. Na iminência do corte de várias relações e partidas, o homem no centro de tudo tem um ataque de histeria e vira-se contra o amigo que lhe ia emprestar o dinheiro para voltar a São Petersburgo, mas exalta-se e propõe um duelo, que o zoólogo aceita de imediato, sem ter nada a ver com o assunto, e apenas movido pelo ódio. Daí surge uma boa lição da natureza humana. Tchékhov não é extravagante, antes controlado e com uma excelente noção de ritmo.
Realizado por Sidney Pollack a convite do próprio Gehry, que rejeitou outros documentários sobre ele, Sketches of Frank Gehry é principalmente sobre o processo de conceptualização e o trabalho manual do arquitecto. Pela familiaridade entre ambos, há temas como a infância, a mudança do nome Judaico, a admiração por Alvar Aalto e pelo hóquei no gelo, o trabalho de equipa, a ida do Canada para Los Angeles, as críticas negativas, que são acessíveis e discutidos. As raízes modernistas e a tentativa de se expressar através dos materiais, até uma cisão completa com todas as regras e estilos surgem também num registo muito pessoal e íntimo. Grande parte do foco está no museu Guggenheim de Bilbao, com contribuições interessantes das pessoas envolvidas, havendo vários testemunhos de artistas e arquitectos ao longo do documentário.
Com uma montagem muito amadora, The Pervert's Guide To Cinema é narrado e escrito por Slavoj Zizek. O filósofo defende que o cinema é a arte dos pervertidos, pois não dá o que desejamos, diz-nos o que desejar. Dividido em três capítulos, analisa vários filmes de diferentes eras do cinema no seu Inglês macarrónico como Matrix, Os Pássaros, Psycho, filmes dos Irmãos Marx, O Exorcista, O Testamento do Dr Mabuse, Alien, O Ditador, Mullholand Drive, Dr Strangelove, Fight Club, Vertigo, Solaris, Persona, Eyes Wide Shut, A Pianista, Dogville, ou seja, tudo de topo. As considerações que o Esloveno faz são muito aleatórias (a ligação entre o sorriso do gato de Alice que perdura quando ele desaparece e o desejo de dançar materializados nos sapatos de The Red Shoes? Flores serem proibidas a crianças?), indo aos sítios onde as cenas são passadas no filme. Outros dos temas lançados são por exemplo os níveis do espaço ou da relação entre as personagens, a serem o id, ego e superego, a voz nos filmes sem corpo, a imortalidade das figuras masculinas de Lynch e ideias Freudianas. Claro que vale a pena por ser uma discussão de filmes bastante interessantes, e Zizek diz que para compreender a realidade de hoje em dia é preciso o cinema.
Com um óptimo cuidado estético, Format Perspective é um documentário sobre pessoas envolvidas no skate na Suécia, Irlanda do Norte, Irlanda, Londres (com o editor da revista Kingpin), Alemanha e Espanha. Em vez dos skaters, são os fotógrafos a falarem sobre as cenas locais. A edição, com muito trabalho em cima, faz com que tenha uma fotografia nostálgica, como um filme que parece queimado pelo sol. Os diferentes fotógrafos falam das motivações, no trabalho de colegas que lhes interessa e no que buscam nas imagens que tiram. Uma voz independente e um produto muito bem executado.
Baseado no livro de Kathryn Stockett, The Help tem como personagem principal uma mulher negra que ao crescer já sabia que iria ser empregada doméstica. Cuida de crianças brancas enquanto as dela crescem com outras pessoas, e essas crianças brancas têm os próprios filhos, e uma delas quer escrever um livro sobre a perspectiva das amas negras. Inicialmente relutantes, após algumas tragédias, muitas aceitam falar. A descriminação para com quem criava as filhas, que não podia usar as mesmas casas-de-banho que as crianças brancas é o pólo que comanda todos os sentimentos das diferentes personagens. Os cenários são magníficos, das grandes casas do Sul, bem como os interiores, num filme feito para os Óscares, com grandes valias.
O designer Mathieu Lehanneur, cujas criações têm um forte carácter biológico e científico patente nas inúmeros peças que tem desenhado em conjunto com cientistas, tem um livro dedicado às peças, bem como às imagens que o inspiraram para cada peça, e o processo. O resultado final é quase sempre deslumbrante.
Sem dúvida dos projectos mais estranhos, Anna Nicole é um filme da peça/ópera sobre a vida de Anna Nicole Smith. Talvez seja uma adaptação dos tempos modernos de muitas tragédias, o que é certo é que é uma produção muito elaborada, com mais de 40 cantores em palco, idealizada por Mark-Anthony Turnage. Se houvessem poucos motivos para duvidar desta ópera, acrescente-se o facto de ser uma produção Inglesa. Confesso que não conheço nenhum libreto moderno, mas os cenários apesar de obviamente modernos, são muito bonitos. Ainda assim, parece uma piada que se esgota rapidamente, sendo os seios da falecida actriz o ponto central de todo o primeiro acto, sendo o segundo reservado para o marido idoso e o filho Daniel, que morreu antes dela.
Barthes, que segundo o próprio não tem paciência para ser amador da fotografia sequer, procura definir pelas suas palavras a força que certas fotografias têm. E é nas suas palavras que reside o problema da sua expressão. Reconheço-lhe o génio e a escola, mas a forma de escrevem em dez linhas o que podia ser dito em uma é exasperante. Sei que dizer isto de uma figura dadas palavras como Barthes parece provocante, mas a minha incompatibilidade é de há muito. A imagem fotográfica e o pêndulo entre a vida e a morte são dois interessantes conceitos mentais de A Câmara Clara. Quantos às fotografia, muito bem escolhidas, com comentários acertados que denotam um bom olhar, finalizando com uma teoria sobre a nossa memória colectiva e a morte, através de uma fotografia da mãe, o que fica sempre bem.
Em 2003, Louis Theroux vai ter com famílias Americanas que vive em comunidade com valores racistas de extrema direita, descendentes do KKK. Nas questões que faz tenta impor a visão dele em vez de deixar as câmaras fazerem o relato, o que é algo incomodativo, bem como as perguntas disparatadas que faz, como pedir para dormir na casa de uma pessoa que acabou de conhecer, Tom Metzger, famoso pela actividade como orador e escritor dentro dessa temática é o ponto central da história. O agente dele desperta uma curiosidade no narrador, pois já esteve preso por tráfico de cocaína, e um dos organizadores de um evento onde Metzger vai falar convida-o para ir ver a casa uns dias antes do evento, decorada com várias insígnias nazis, com vários filhos. Em Louis and the Nazis, a estupidez leva-o a levantar a suspeita sobre ele próprio ser Judeu, levando a uma discussão em casa das pessoas que ficam reticentes quanto a eles e que se expõem como aquilo que são. Chegado o dia do evento, há muita gente lá reunida, incluindo Lamb & Lynx, que são o alvo do segundo documentário. Preparadas pela mãe para serem um duo, estudam em casa com a mãe que as educa. O avô foi o responsável pelo tipo de ideologia da família, e uma das cinco filhas de Tom era responsável pela Liga Ariana Feminina. Entretanto, Metzger, o agente e Louis vão até ao México, tirando Louis da sua posição confortável, e o que começam a fazer lá é tão estranho que tem imensa graça. Louis ofende Metzger, o que por piores que sejam as ideologias dele, não é o seu papel. Quatro anos depois, volta a estar com Lamb & Lynx, que mantém a carreira musical, num documentário mais curto chamado Nazi Pop Twins, mas muito mais bem executado, até por ter menos tempo de Theroux em frente à câmara. Num ano na vida delas, em que têm de viver com ameaças de morte, e estão a querer ficar mais independentes, há várias mudanças. Os protestos contra a mãe aumentam com a mudança para o Montana, tanto dos residentes, como das raparigas, sendo o documentário interrompido e ficando a ideia de um objecto incompleto.
Conhecidos como o melhor e o pior do futebol na America, os New York Cosmos foram uma equipa de estrelas. Once In A Lifetime é um documentário onde a história do clube em 1977 se cruza com o começo do futebol nos EUA. Aquela que foi a primeira equipa decente do país e a adaptação dos Americanos a este desporto, num tempo de ingenuidade em que até os investidores desconheciam o futebol, acabou por dar frutos. As histórias aparecem contadas pelos antigos jogadores, treinadores e pessoas envolvidas com os Cosmos e o futebol na América, incluíndo a mítica dupla de atacantes. É um documentário muito completo e bem montado.
Realizado pelo filho de William Colby, um agente da CIA, The Man Nobody Knew - In Search of My Father inicia com o percurso no exército e por todo o mundo em treinos e missões de Guerra contra os Nazis. Em Itália conhece a mãe do realizador enquanto faz diferentes missões, bem como no Saigão, Vietname e Cuba. Durante a administração Kennedy fez parte de uma das épocas mais decisivas do século XX e esteve presente em vários dos pontos onde os Estados Unidos estiveram activos. Importante foi também o relacionamento com a mãe (não fosse isto realizado pelo filho do casal) e o papel dela ao lado dele, inverso à complexidade de todas as relações que ele tinha, que o levaram a comandar a CIA, e depois a ser afastado. Com muitas imagens da época e relatos de familiares e colegas é um filme com uma perspectiva única e com bastante material. A busca não é dada por finalizada, pois a morte de Colby numa canoa no rio que gostava não parece fazer sentido.
Uma produção conjunta da Finlândia, Alemanha e Austrália (?), Iron Sky não pode ser julgado pelo mesmo padrão dos filmes de ficção-científica de Hollywood. Com animações péssimas e efeitos especiais ainda piores que o humor, a premissa de que havia Nazis na lua, que se preparam para regressar à Terra, e por isso aprendem os costumes dos Terráqueos, é engraçada. O astronauta que eles capturam é negro, e tal como todos os terráqueos, é um idiota. A missão dele é permitir aos nazis extraterrestres falarem com a presidente Americana, mas claro que a chegada à Terra corre mal. Há coisas com piada como a influência do Ditador de Chaplin ou Sarah Palin como presidente, ainda assim, fica bastante aquém.
Cem artistas, na sua maioria latinos, foram convidados a interpretar Qees de oito polegadas. Não são customizadores habituais, mas alguns aplicam técnicas interessantes, sendo Swab Toyz uma colecção boa, com o propósito de ajudar a luta contra a SIDA.
Chanel - Collections and Creations não é a monografia em formato de mesa de café que a casa Parisiense merecia, ainda assim é um livro que vale a pena ler, escrito por alguém exterior à marca. O perfume N.5, os princípios seguidos por Coco e as homenagens dos criadores que se seguiram são alguns dos focos, bem como o preto e branco que, obviamente, marca a estética.
Reprodução conjunta dos quatro números de Newton's Illustrated, cada um dedicado a um tema como a fama ou nudez. Fotografias belíssimas a preto e branco (exceptuando algumas do último número), encenadas, que traduzem requinte e luxúria.
Into The Abyss é o projecto final de Werner Herzog, relativo a Death Row, lançado em 2011, elabora nas entrevistas e acrescenta muitas outras filmagens e entrevistas com pessoas envolvidas no processo de tirar a vida a um homem, com Herzog sempre inquisitivo. O realizador considera que os seres humanos não devem ser executados, ainda que imagens do crime de Michael Perry, de como a casa ficou após o homícido e uma reconstrução por parte do xerife mostrem a crueldade dos crimes. Para passar a noção da gravidade do crime, entrevista o irmão de uma das vítimas, a irmã e filha de outra e várias outras pessoas que contribuem imensamente para a história, numa perspectiva apaziguadora e com um final em vista.
O primeiro filme de Wong Kar Wai em Inglês é uma ocidentalização de muitos momentos e sentimentos orientais para a óptica das massas. Em My Blueberry Nights, uma rapariga (curiosamente um símbolo dessa transposição, filha da Ravi Shankar, mais conhecida por Norah Jones) tenta reencontrar uma pessoa num bar onde o dono lhe diz que as sobremesas acabam sempre quase todas, menos a tarte de mirtilos. Ela muda-se de cidade para esquecer o rapaz, e encontra um policia em Memphis que tem um hábito de beber após o divórcio. Apesar de ser muito simpático para ela, é abusivo para com a ex-mulher, que também tem problemas com o álcool. O filme acaba por se extremamente lento e entediante por causa desse ciclo. Para o quebrar, a amizade com a nova rapariga que aparece (Natalie Portman, muito bem), é despachada a toda a pressa. Mantém-se em contacto com o dono do bar em Nova Iorque e o seguimento da amizade deles é uma carga de clichés.
Acontece eu não saber que tipo de filme me é apresentado. E também acontece que eu queira ver filmes que vão ser maus. Em Pasadena, um rapaz vai ter uma casa para ele e os amigos, onde organizam uma festa para as pessoas da escola. No entanto, ninguém conhece a pessoa que faz anos, o que não impede que aparece muita gente. As músicas tocam alto, partem-se coisas, e o Project X é o trabalho de uma das personagens, que está sempre a gravar um vídeo. Parece um longo videoclip, sendo a ênfase mais nas musicas do que na história, que é apenas uma sequência de cenas aleatórias. Uma espécie de American Pie para os mais novos.
Há livros que não recebem nenhum destaque, mas que acabam por ser as mais-valias nas bibliotecas. Full Bleed é um exemplo latente de como até com grandes nomes (e um trabalho a esse nível), as teias da distribuição podem salvar muitas carreiras, e renegar outros livros ao esquecimento. E é exactamente contra esse esquecimento que as muitas fotografias (304 páginas) lutam. Cingindo-se ao espaço físico de Nova Iorque, há no entanto três décadas diferentes de fotografias de mais de quarenta fotógrafos, a maior parte nomes cimeiros e com grande representatividade no que toca ao skate. Soberbo não só o exercício nostálgico para alguns, o revisitamento histórico para outros, mas igualmente um fantástico livro de fotografia técnica, não fosse o skate pioneiro em inúmeras técnicas de registo fotográfico e fílmico. Não se pode dizer que ou os fotógrafos ou os skaters tenham mais destaque no livro, pois é claro que a grande inspiração é a rugosidade da cidade Norte-Americana, cujas ruas são retratadas com grande reverência e beleza neste conjunto de fotografias.
Andy Warhol Giant Size é um daqueles esforços hercúleos que faz a ponte entre o catalogue raisonné e a porta introdutória para um artista a ser usada por um público mais vasto. A posição de Warhol na arte moderna mantém-se aquela que sempre desejou, e se as duas mil imagens divididas pelos sete quilos deste livro parecem um número absurdo, é certo que com a produção da sua Factory dava para encher bastantes vezes este número. Muitas das obras que marcaram a pop art, muitos objectos pessoais e mundanos, fotografias privadas, alguns textos críticos e um pesado emblema para a sala de estar que atesta a vanguarda dos habitantes.
Como o subtítulo denota, Maximum Rad é um livro de mesa com as capas mais icónicas da revista Thrasher. Bem organizado e ilustrado, as fotografias são complementadas com excertos dos skaters retratados na capa na actualidade, onde explicam a importância de terem conseguido aparecer na capa, bem como o seu envolvimento actual com o skate. As lendas, os casos únicos que não ficaram para a história e claro, as manobras, num livro digno de destaque em qualquer sala.
Ainda antes do apogeu de produção que foi a última digressão/album, Kanye West ameaçava produções arrojadas e com um grande sentido estético a ir buscar influências Greco-Romanas, mescladas com o futurismo das luzes quentes. Glow In The Dark é um livro que divide a digressão em duas partes, pois foram espectáculos reformulados, através da objectiva de Nabil Elderkin. As fotografias deixam bastante a desejar, pois com tanto material disponível, esperava-se mais, no entanto, a entrevista com Spike Jonze é bastante interessante, e o ponto central do livro. O CD incluído, é mais do que dispensável, pois apenas tem alguns instrumentais incompletos, não acrescentado nada ao livro.
Apesar de já ter alguns anos, The Concrete Wave é um livro curioso sobre a história do skate. Como em tudo, há algumas coisas que ficam de fora, mas algumas inclusões inesperadas da perspectiva histórica do autor Michael Brooke, compensam. O grande problema do livro, prende-se com a edição e grafismo, que é absolutamente horrível e datado, no entanto, os textos do livro propriamente dito (excusavam-se os avisos quanto ao conteúdo no prólogo, e os indices) são bem escritos e cativantes.
O último capítulo da trilogia de Christopher Nolan à frente dos destinos do Batman chega com um filme que parece passar depressa. Mais negro do que os habituais filmes de super-heróis, não chega nunca a deixar de ser isso, no fundo. Não é nenhum épico em que o espectador venha a sair impressionado com a profundidade do pensamento de Batman, e mesmo a sua destreza é oferecida de modo condicionado. The Dark Knight Rises não é um mau filme para massas, tem cenas panorâmicas que são um deleite, tem acção bem distribuída, tem surpresas, e um fim que é apesar de tudo, em aberto. A sonografia é de topo, bem como o desempenho de Christian Bale (tal como os outros super-heróis, incluindo aqueles que estão por descobrir-se), e será porventura o ponto mais alto da saga do cavaleiro das trevas durante muitos anos.
How I Met Your Mother tenta manter acesa a chama que deflagrou com Friends durante os anos 90, e é possivelmente a melhor série do género, como atesta a popularidade da série, traduzida no número de temporadas para que tem sido renovada. Apesar de uma personagem central miserável, cuja história de como conheceu a mulher, tenta contar aos filhos em cada episódio, as outras personagens, bem como os actores, certamente compensam. O casal que tem um bocado de cada espectador, o solteiro que vive uma vida que é de sonho/pesadelo mas que se tenta sempre corrigir e a rapariga ingénua que tem o comportamento alterado pela cidade contam a sua vida com muitos flashforwards/backs. Não é a odisseia emocional que Friends foi para tanta gente, e a história parece que quase não avançou ao fim de tantos anos, mas de episódios para episódio, é bem escrito, bem humorado e com muitas piadas. Pena não ter outro actor e personagem no centro da história, mas para a duração de vinte minutos de humor ligeiro, é óptima.
Passado em Puerto Rico, The Rum Diary tem cenários muito bons, mas é uma valente seca. Coitado do Hunter S. Thompson.
Apesar de as imagens remeterem para os anos 70, The Black Power Mixtape 1967-1975 é um documentário do ano transacto, com a variante exótica de ser a disposição de imagens de um arquivo Sueco. Narrado por Erykah Badu, foca-se na luta dos direitos dos negros, com Martin Luther King à cabeça. A necessidade de guardarem a história dessa luta foi atendida por uma equipa de jornalistas Suecos na época, complementada com uma montagem recente desses registos. Um exercício curioso, e cujo material merece ser visto ainda hoje.

Utz

Kaspar Joachim Utz colecciona porcelanas de Meissen. Dedicado às peças na Checoslováquia durante a Guerra Fria, só pode sair do país uma vez anualmente. E é por não poder levar as porcelanas, que tem sempre uma desculpa para regressar a casa. Bruce Chatwin, o autor, de porteiro a director da Sothebys, largo tudo para viajar e foi com esses escritos que se tornou famoso. No entanto, Utz é um livro assinável, de 1988. Um investigador do Imperador Rudolfo, célebre pelos tesouros que amealhara, é posto em contacto com Utz, um 'Rudolfo dos nossos tempos'. As mil peças no apartamento não desanimam o investigador, dando achas para os muitos diálogos do livro, que é narrado por um Americano. Em miúdo, Utz pediu um arlequim de J. J. Kaendler que estava numa montra, mas a avó, que lhe dava tudo, negou-o. Deu-o quatro anos depois, quando morreu o pai dele, e agora obcecado, Utz coleccionou e defendia que as peças estragavam-se por não serem tocadas. Politicamente neutro e já sem a avó e mãe, comprava. Em criança estivera em Inglaterra, mas com Hitler, deixou a nacionalidade Alemã. Exibe a sua colecção aos amigos. A policia secreta foi a casa dele para inventeriar a sua colecção, mas o coleccionador ia a caminho de Vichy em França, tratar de uma doença imaginária. Chegado lá, achou tudo muito chato, dormia mal e tinha saudades da empregada Marta. Voltou, mas repetia a viagem todos os anos. Após a morte dele, o museu não sabe onde está a colecção,e os dois amigos dos almoços de trutas encontram-se, ficando-se a saber que ele casou com a empregada agora Baronesa, para não perder a casa, e teria sido ela a partir a colecção. Não era certo que fosse barão, mas tinha tido muitas mulheres. Marta quis ser respeitada, e casou pela igreja com ele uma década depois do primeiro casamento civil, dormindo na mesma cama. O funeral de Utz estava vazio porque ela dera indicações erradas às amantes e aos funcionários do museu quanto à hora e local. É este o início do livro, com a morte. Poucos amigos num funeral, a empregada e um organista substituto que era o sacristão, porque o original não queria acordar cedo. Na relação de Utz com a porcelana, Chatwin dá uma bela noção do coleccionismo, num romance que tem uma forma típica da Europa de Leste do século passado. A posse de objectos foi o que definiu a vida de Urtz, e o que o ligava às memórias de infância, mas isso só concedia um carácter divino à colecção, em vez de algo tão físico. A baronesa estava numa casa simples na aldeia, e talvez as porcelanas se tivessem tornado irrelevantes, como avança o narrador, perante o amor de Marta. Bonito.
Apesar de distar vinte e cinco anos de diferença de Menos Que Zero, Quartos Imperiais é a sequela directa do primeiro livro de Bret Easton Ellis. Clay é agora um argumentista, que depois de vários anos em Nova Iorque, vai a Los Angeles em trabalho. Promete papéis a pessoas com quem se envolve, e torna-se uma sombra daquilo que podia ser. Neste episódio (e com a sua curta dimensão, é o que o livro parece), Rain, tem uma má aura, e tendo ligações a quase todos os antigos amigos de Clay e outros homens, deixa Clay numa cilada. A relação de Rip e Julian mantém a mesma dinâmica, subindo a força das suas posições, portanto as consequências também descambam noutras resoluções. Blair oscila entre ajudas a Clay e o desprezo, sendo talvez a única que o tempo não demonizou. O estilo, mantém-se o do primeiro livro, ainda que seja mais directo ao assunto, o que pode ser uma desvantagem ou desvantagem, consoante o leitor.
A força de Menos Que Zero não pode ser medida aos olhos da sociedade actual, em que inúmeros reality shows e livros se baseiam na personagem Clay e no seu grupo de amigos endinheirados. Escrito aos dezanove anos por Bret Easton Ellis, é um retrato possivelmente chocante de Los Angeles, onde os jovens ociosos só querem saber de drogas, festas e MTV. Com uma narrativa quebrada em parágrafos (cenas), há que dar mérito ao que terá representado aquando o seu lançamento. Clay, que veio passar as quatro semanas de férias de Natal a casa, parece, apesar de tudo o que tem em comum, ser mais atento que o resto do grupo. Tem de lidar com as recordações da família de férias em Palm Springs, com a namorada que deixou ao ir para a universidade, e mais pesado que tudo o resto, com o presente.
Tal como os diversos filmes de culto do cinema negro que homenageia no título, Don't Be A Menace To South Central While Drinking Your Juice In The Hood é algo inconsequente. Questionando as estatísticas dos negros Americanos através do humor, a dupla Shawn e Marlon Wayans cumpre os requisitos, com tiros, acidentes, murros à avó, combinações de armas com sapatilhas, customização de cadeiras de rodas, racismo em todas as direcções e eventos com a igreja e gravidez a surgirem-lhes no dia-a-dia. Nada de memorável, mas entretém.
De Eric Steel, The Golden Gate Bridge Suicides é um documentário que prometia mais do que é. As imagens não têm grande qualidade, e apesar das estatísticas de vinte e quatro pessoas suicidarem-se na ponte de São Francisco em 2004, acaba por se focar em apenas 3 histórias. Familiares e amigos de pessoas que saltaram, pessoas que impediram, imagens de alguns a suicidarem-se e dos momentos que antecedem a queda, compõem o quadro destas tragédias.
Na visão do autor de Jerusalém - A Biografia, esta cidade encontra-se no centro do que é o mundo, pois tudo o que se passou lá terá dito ou reflexo no mundo, ou os acontecimentos exteriores terão sido sempre transportados até esta cidade do Médio Oriente. Escrito de maneira neutra (apesar dos apelidos de Simon Sebag Montefiore concederem a precedência deste), é um livro realmente espantoso, que trata a história da cidade desde há três mil anos, do abandono, a opulência, as reconstruções, a destruição, os actos de bondade e as reviravoltas do destino que sempre se sucederam em Jerusalém. As três religiões monoteístas que dominaram os destinos da cidade servem de encaixe para as descrições das mudanças ao longo dos séculos, alicerçadas por uma escrita descomplexada, com um grande trabalho de pesquisa por trás e acessível. Apesar da sua extensão (e se o número de páginas pode assustar, o tamanho da letra diminuto permite que se inclua ainda mais informação), é um livro empolgante e cujo caminhar em direcção à era moderna se faz com a ansiedade dos grandes romances. A mística e os tesouros da cidade são compreendidos por Simon Sebag Montefiore, e dificilmente será escrito um livro melhor sobre esta cidade que tantas alegrias e desgraças trouxe ao mundo.
Uma versão comercial de um trabalho mais completo designado para os meios académicos, Tempo da Música, Música do Tempo foi um livro que saiu após a recepção do Prémio Pessoa por Eduardo Lourenço. Os textos inéditos aparecem divididos por períodos como o Francês e o Coimbrão, sendo muito diferentes na dimensão, e a opção de os publicar na língua em que foram escritos só contribui para a desorganização deste volume organizado por Barbara Aniello. Os 212 excertos surgiram em cadernos que este mantém e páginas soltas, cobrindo os anos de 1948 até 2006. Sobre o conteúdo, tal como o nome indica, a música (clássica), resta apenas acrescentar que, se algumas análises, observações e críticas são interessantes, à falta de um fio condutor e o carácter (excessivamente) pessoal dessas ideias, tornam o livro algo leviano. Talvez com a versão definitiva se fique com a certeza que Eduardo Lourenço tem realmente algo a dizer sobre música.
Pintura Habitada é um documentário de Joana Ascensão sobre a artista plástica Helena Almeida, com o título retirado de uma das suas séries. É um filme decente, não tanto sobre o percurso da artista, mas uma representação do trabalho de Helena Almeida, uma das mais célebres artistas Portuguesas, que faz uso do corpo e da fotografia na maioria dos trabalhos. Para além de exposições, estudos, desenhos e obras por imprimir, é possível assistir a algumas interações com colaboradores, e a fazes da criação onde a Lisboeta lida com a fronteira do espaço intimo e físico que a rodeia. A assistir, mas para pensar também, pois não é uma obra 'totalizada', ainda que muito própria.