Chanel - Collections and Creations não é a monografia em formato de mesa de café que a casa Parisiense merecia, ainda assim é um livro que vale a pena ler, escrito por alguém exterior à marca. O perfume N.5, os princípios seguidos por Coco e as homenagens dos criadores que se seguiram são alguns dos focos, bem como o preto e branco que, obviamente, marca a estética.
Reprodução conjunta dos quatro números de Newton's Illustrated, cada um dedicado a um tema como a fama ou nudez. Fotografias belíssimas a preto e branco (exceptuando algumas do último número), encenadas, que traduzem requinte e luxúria.
Into The Abyss é o projecto final de Werner Herzog, relativo a Death Row, lançado em 2011, elabora nas entrevistas e acrescenta muitas outras filmagens e entrevistas com pessoas envolvidas no processo de tirar a vida a um homem, com Herzog sempre inquisitivo. O realizador considera que os seres humanos não devem ser executados, ainda que imagens do crime de Michael Perry, de como a casa ficou após o homícido e uma reconstrução por parte do xerife mostrem a crueldade dos crimes. Para passar a noção da gravidade do crime, entrevista o irmão de uma das vítimas, a irmã e filha de outra e várias outras pessoas que contribuem imensamente para a história, numa perspectiva apaziguadora e com um final em vista.
O primeiro filme de Wong Kar Wai em Inglês é uma ocidentalização de muitos momentos e sentimentos orientais para a óptica das massas. Em My Blueberry Nights, uma rapariga (curiosamente um símbolo dessa transposição, filha da Ravi Shankar, mais conhecida por Norah Jones) tenta reencontrar uma pessoa num bar onde o dono lhe diz que as sobremesas acabam sempre quase todas, menos a tarte de mirtilos. Ela muda-se de cidade para esquecer o rapaz, e encontra um policia em Memphis que tem um hábito de beber após o divórcio. Apesar de ser muito simpático para ela, é abusivo para com a ex-mulher, que também tem problemas com o álcool. O filme acaba por se extremamente lento e entediante por causa desse ciclo. Para o quebrar, a amizade com a nova rapariga que aparece (Natalie Portman, muito bem), é despachada a toda a pressa. Mantém-se em contacto com o dono do bar em Nova Iorque e o seguimento da amizade deles é uma carga de clichés.
Acontece eu não saber que tipo de filme me é apresentado. E também acontece que eu queira ver filmes que vão ser maus. Em Pasadena, um rapaz vai ter uma casa para ele e os amigos, onde organizam uma festa para as pessoas da escola. No entanto, ninguém conhece a pessoa que faz anos, o que não impede que aparece muita gente. As músicas tocam alto, partem-se coisas, e o Project X é o trabalho de uma das personagens, que está sempre a gravar um vídeo. Parece um longo videoclip, sendo a ênfase mais nas musicas do que na história, que é apenas uma sequência de cenas aleatórias. Uma espécie de American Pie para os mais novos.
Há livros que não recebem nenhum destaque, mas que acabam por ser as mais-valias nas bibliotecas. Full Bleed é um exemplo latente de como até com grandes nomes (e um trabalho a esse nível), as teias da distribuição podem salvar muitas carreiras, e renegar outros livros ao esquecimento. E é exactamente contra esse esquecimento que as muitas fotografias (304 páginas) lutam. Cingindo-se ao espaço físico de Nova Iorque, há no entanto três décadas diferentes de fotografias de mais de quarenta fotógrafos, a maior parte nomes cimeiros e com grande representatividade no que toca ao skate. Soberbo não só o exercício nostálgico para alguns, o revisitamento histórico para outros, mas igualmente um fantástico livro de fotografia técnica, não fosse o skate pioneiro em inúmeras técnicas de registo fotográfico e fílmico. Não se pode dizer que ou os fotógrafos ou os skaters tenham mais destaque no livro, pois é claro que a grande inspiração é a rugosidade da cidade Norte-Americana, cujas ruas são retratadas com grande reverência e beleza neste conjunto de fotografias.
Andy Warhol Giant Size é um daqueles esforços hercúleos que faz a ponte entre o catalogue raisonné e a porta introdutória para um artista a ser usada por um público mais vasto. A posição de Warhol na arte moderna mantém-se aquela que sempre desejou, e se as duas mil imagens divididas pelos sete quilos deste livro parecem um número absurdo, é certo que com a produção da sua Factory dava para encher bastantes vezes este número. Muitas das obras que marcaram a pop art, muitos objectos pessoais e mundanos, fotografias privadas, alguns textos críticos e um pesado emblema para a sala de estar que atesta a vanguarda dos habitantes.
Como o subtítulo denota, Maximum Rad é um livro de mesa com as capas mais icónicas da revista Thrasher. Bem organizado e ilustrado, as fotografias são complementadas com excertos dos skaters retratados na capa na actualidade, onde explicam a importância de terem conseguido aparecer na capa, bem como o seu envolvimento actual com o skate. As lendas, os casos únicos que não ficaram para a história e claro, as manobras, num livro digno de destaque em qualquer sala.
Ainda antes do apogeu de produção que foi a última digressão/album, Kanye West ameaçava produções arrojadas e com um grande sentido estético a ir buscar influências Greco-Romanas, mescladas com o futurismo das luzes quentes. Glow In The Dark é um livro que divide a digressão em duas partes, pois foram espectáculos reformulados, através da objectiva de Nabil Elderkin. As fotografias deixam bastante a desejar, pois com tanto material disponível, esperava-se mais, no entanto, a entrevista com Spike Jonze é bastante interessante, e o ponto central do livro. O CD incluído, é mais do que dispensável, pois apenas tem alguns instrumentais incompletos, não acrescentado nada ao livro.
Apesar de já ter alguns anos, The Concrete Wave é um livro curioso sobre a história do skate. Como em tudo, há algumas coisas que ficam de fora, mas algumas inclusões inesperadas da perspectiva histórica do autor Michael Brooke, compensam. O grande problema do livro, prende-se com a edição e grafismo, que é absolutamente horrível e datado, no entanto, os textos do livro propriamente dito (excusavam-se os avisos quanto ao conteúdo no prólogo, e os indices) são bem escritos e cativantes.
O último capítulo da trilogia de Christopher Nolan à frente dos destinos do Batman chega com um filme que parece passar depressa. Mais negro do que os habituais filmes de super-heróis, não chega nunca a deixar de ser isso, no fundo. Não é nenhum épico em que o espectador venha a sair impressionado com a profundidade do pensamento de Batman, e mesmo a sua destreza é oferecida de modo condicionado. The Dark Knight Rises não é um mau filme para massas, tem cenas panorâmicas que são um deleite, tem acção bem distribuída, tem surpresas, e um fim que é apesar de tudo, em aberto. A sonografia é de topo, bem como o desempenho de Christian Bale (tal como os outros super-heróis, incluindo aqueles que estão por descobrir-se), e será porventura o ponto mais alto da saga do cavaleiro das trevas durante muitos anos.
How I Met Your Mother tenta manter acesa a chama que deflagrou com Friends durante os anos 90, e é possivelmente a melhor série do género, como atesta a popularidade da série, traduzida no número de temporadas para que tem sido renovada. Apesar de uma personagem central miserável, cuja história de como conheceu a mulher, tenta contar aos filhos em cada episódio, as outras personagens, bem como os actores, certamente compensam. O casal que tem um bocado de cada espectador, o solteiro que vive uma vida que é de sonho/pesadelo mas que se tenta sempre corrigir e a rapariga ingénua que tem o comportamento alterado pela cidade contam a sua vida com muitos flashforwards/backs. Não é a odisseia emocional que Friends foi para tanta gente, e a história parece que quase não avançou ao fim de tantos anos, mas de episódios para episódio, é bem escrito, bem humorado e com muitas piadas. Pena não ter outro actor e personagem no centro da história, mas para a duração de vinte minutos de humor ligeiro, é óptima.
Passado em Puerto Rico, The Rum Diary tem cenários muito bons, mas é uma valente seca. Coitado do Hunter S. Thompson.
Apesar de as imagens remeterem para os anos 70, The Black Power Mixtape 1967-1975 é um documentário do ano transacto, com a variante exótica de ser a disposição de imagens de um arquivo Sueco. Narrado por Erykah Badu, foca-se na luta dos direitos dos negros, com Martin Luther King à cabeça. A necessidade de guardarem a história dessa luta foi atendida por uma equipa de jornalistas Suecos na época, complementada com uma montagem recente desses registos. Um exercício curioso, e cujo material merece ser visto ainda hoje.

Utz

Kaspar Joachim Utz colecciona porcelanas de Meissen. Dedicado às peças na Checoslováquia durante a Guerra Fria, só pode sair do país uma vez anualmente. E é por não poder levar as porcelanas, que tem sempre uma desculpa para regressar a casa. Bruce Chatwin, o autor, de porteiro a director da Sothebys, largo tudo para viajar e foi com esses escritos que se tornou famoso. No entanto, Utz é um livro assinável, de 1988. Um investigador do Imperador Rudolfo, célebre pelos tesouros que amealhara, é posto em contacto com Utz, um 'Rudolfo dos nossos tempos'. As mil peças no apartamento não desanimam o investigador, dando achas para os muitos diálogos do livro, que é narrado por um Americano. Em miúdo, Utz pediu um arlequim de J. J. Kaendler que estava numa montra, mas a avó, que lhe dava tudo, negou-o. Deu-o quatro anos depois, quando morreu o pai dele, e agora obcecado, Utz coleccionou e defendia que as peças estragavam-se por não serem tocadas. Politicamente neutro e já sem a avó e mãe, comprava. Em criança estivera em Inglaterra, mas com Hitler, deixou a nacionalidade Alemã. Exibe a sua colecção aos amigos. A policia secreta foi a casa dele para inventeriar a sua colecção, mas o coleccionador ia a caminho de Vichy em França, tratar de uma doença imaginária. Chegado lá, achou tudo muito chato, dormia mal e tinha saudades da empregada Marta. Voltou, mas repetia a viagem todos os anos. Após a morte dele, o museu não sabe onde está a colecção,e os dois amigos dos almoços de trutas encontram-se, ficando-se a saber que ele casou com a empregada agora Baronesa, para não perder a casa, e teria sido ela a partir a colecção. Não era certo que fosse barão, mas tinha tido muitas mulheres. Marta quis ser respeitada, e casou pela igreja com ele uma década depois do primeiro casamento civil, dormindo na mesma cama. O funeral de Utz estava vazio porque ela dera indicações erradas às amantes e aos funcionários do museu quanto à hora e local. É este o início do livro, com a morte. Poucos amigos num funeral, a empregada e um organista substituto que era o sacristão, porque o original não queria acordar cedo. Na relação de Utz com a porcelana, Chatwin dá uma bela noção do coleccionismo, num romance que tem uma forma típica da Europa de Leste do século passado. A posse de objectos foi o que definiu a vida de Urtz, e o que o ligava às memórias de infância, mas isso só concedia um carácter divino à colecção, em vez de algo tão físico. A baronesa estava numa casa simples na aldeia, e talvez as porcelanas se tivessem tornado irrelevantes, como avança o narrador, perante o amor de Marta. Bonito.
Apesar de distar vinte e cinco anos de diferença de Menos Que Zero, Quartos Imperiais é a sequela directa do primeiro livro de Bret Easton Ellis. Clay é agora um argumentista, que depois de vários anos em Nova Iorque, vai a Los Angeles em trabalho. Promete papéis a pessoas com quem se envolve, e torna-se uma sombra daquilo que podia ser. Neste episódio (e com a sua curta dimensão, é o que o livro parece), Rain, tem uma má aura, e tendo ligações a quase todos os antigos amigos de Clay e outros homens, deixa Clay numa cilada. A relação de Rip e Julian mantém a mesma dinâmica, subindo a força das suas posições, portanto as consequências também descambam noutras resoluções. Blair oscila entre ajudas a Clay e o desprezo, sendo talvez a única que o tempo não demonizou. O estilo, mantém-se o do primeiro livro, ainda que seja mais directo ao assunto, o que pode ser uma desvantagem ou desvantagem, consoante o leitor.
A força de Menos Que Zero não pode ser medida aos olhos da sociedade actual, em que inúmeros reality shows e livros se baseiam na personagem Clay e no seu grupo de amigos endinheirados. Escrito aos dezanove anos por Bret Easton Ellis, é um retrato possivelmente chocante de Los Angeles, onde os jovens ociosos só querem saber de drogas, festas e MTV. Com uma narrativa quebrada em parágrafos (cenas), há que dar mérito ao que terá representado aquando o seu lançamento. Clay, que veio passar as quatro semanas de férias de Natal a casa, parece, apesar de tudo o que tem em comum, ser mais atento que o resto do grupo. Tem de lidar com as recordações da família de férias em Palm Springs, com a namorada que deixou ao ir para a universidade, e mais pesado que tudo o resto, com o presente.
Tal como os diversos filmes de culto do cinema negro que homenageia no título, Don't Be A Menace To South Central While Drinking Your Juice In The Hood é algo inconsequente. Questionando as estatísticas dos negros Americanos através do humor, a dupla Shawn e Marlon Wayans cumpre os requisitos, com tiros, acidentes, murros à avó, combinações de armas com sapatilhas, customização de cadeiras de rodas, racismo em todas as direcções e eventos com a igreja e gravidez a surgirem-lhes no dia-a-dia. Nada de memorável, mas entretém.
De Eric Steel, The Golden Gate Bridge Suicides é um documentário que prometia mais do que é. As imagens não têm grande qualidade, e apesar das estatísticas de vinte e quatro pessoas suicidarem-se na ponte de São Francisco em 2004, acaba por se focar em apenas 3 histórias. Familiares e amigos de pessoas que saltaram, pessoas que impediram, imagens de alguns a suicidarem-se e dos momentos que antecedem a queda, compõem o quadro destas tragédias.
Na visão do autor de Jerusalém - A Biografia, esta cidade encontra-se no centro do que é o mundo, pois tudo o que se passou lá terá dito ou reflexo no mundo, ou os acontecimentos exteriores terão sido sempre transportados até esta cidade do Médio Oriente. Escrito de maneira neutra (apesar dos apelidos de Simon Sebag Montefiore concederem a precedência deste), é um livro realmente espantoso, que trata a história da cidade desde há três mil anos, do abandono, a opulência, as reconstruções, a destruição, os actos de bondade e as reviravoltas do destino que sempre se sucederam em Jerusalém. As três religiões monoteístas que dominaram os destinos da cidade servem de encaixe para as descrições das mudanças ao longo dos séculos, alicerçadas por uma escrita descomplexada, com um grande trabalho de pesquisa por trás e acessível. Apesar da sua extensão (e se o número de páginas pode assustar, o tamanho da letra diminuto permite que se inclua ainda mais informação), é um livro empolgante e cujo caminhar em direcção à era moderna se faz com a ansiedade dos grandes romances. A mística e os tesouros da cidade são compreendidos por Simon Sebag Montefiore, e dificilmente será escrito um livro melhor sobre esta cidade que tantas alegrias e desgraças trouxe ao mundo.
Uma versão comercial de um trabalho mais completo designado para os meios académicos, Tempo da Música, Música do Tempo foi um livro que saiu após a recepção do Prémio Pessoa por Eduardo Lourenço. Os textos inéditos aparecem divididos por períodos como o Francês e o Coimbrão, sendo muito diferentes na dimensão, e a opção de os publicar na língua em que foram escritos só contribui para a desorganização deste volume organizado por Barbara Aniello. Os 212 excertos surgiram em cadernos que este mantém e páginas soltas, cobrindo os anos de 1948 até 2006. Sobre o conteúdo, tal como o nome indica, a música (clássica), resta apenas acrescentar que, se algumas análises, observações e críticas são interessantes, à falta de um fio condutor e o carácter (excessivamente) pessoal dessas ideias, tornam o livro algo leviano. Talvez com a versão definitiva se fique com a certeza que Eduardo Lourenço tem realmente algo a dizer sobre música.
Pintura Habitada é um documentário de Joana Ascensão sobre a artista plástica Helena Almeida, com o título retirado de uma das suas séries. É um filme decente, não tanto sobre o percurso da artista, mas uma representação do trabalho de Helena Almeida, uma das mais célebres artistas Portuguesas, que faz uso do corpo e da fotografia na maioria dos trabalhos. Para além de exposições, estudos, desenhos e obras por imprimir, é possível assistir a algumas interações com colaboradores, e a fazes da criação onde a Lisboeta lida com a fronteira do espaço intimo e físico que a rodeia. A assistir, mas para pensar também, pois não é uma obra 'totalizada', ainda que muito própria.
Com uma fotografia magnífica, Hobo With a Shotgun tem, tal como o nome indica, um sem-abrigo como personagem principal. Com um começo que cola qualquer um à cadeira, o sem-abrigo assiste ao caos do mundo e a degradação das pessoas que habitam as ruas da cidade, tentando repor a ordem, mas dois jovens têm a policia no bolso. Ele é apanhado numa cilada, apunhalado e atirado para a rua. Uma prostituta ajuda-o e ele usa o gesto como combustível para a sua nova missão. Regressa aos mesmos sítios sem uma atitude de vingança e a tentar sobreviver, mas calha estar numa loja aquando esta é assaltada, e aniquila os assaltantes com uma caçadeira que passa a trazer. Começa a fazer justiça pelas próprias mãos em tudo o que vê, num filme que tem tanto de divertido como de violento, sendo uma boa sequência com Dead Snow.
Um filme sobre aceitação como Lars and The Real Girl consegue fazer essa aceitação bastante difícil. Os desempenhos dos actores, com Ryan Gosling à cabeça são competentes, mas não é que o plástico alguma vez desapareça da boneca que Lars encomenda alguma vez desapareça. Lars vive numa garagem e tem dificuldades em relacionar-se, e um colegaencontra online uma boneca anatomicamente correcta, que Lars decide testar. E depois apresentá-la aos amigos. E depois viver com ela, e jantar, convencido que ela é uma pessoa. A preocupação das pessoas que o rodeiam é reconduzida para um sentimento de aceitação da boneca, sem chegar a lado nenhum. Ela adoece e a mãe de Lars tenta convencer o casal mais próximo de que ela está mesmo doente. Ela morre e ele fica triste, como seria previsível.
Escrito e realizado por George Clooney, The Ides of March tem como personagem central o ajudante de um político, Ryan Gosling, que ao testar o primeiro discurso que o candidato Clooney usará no dia seguinte, não se apercebe que a sua visão moral da política vai ser confrontada com a realidade, e tomar controlo de tudo o que ele faz. Satisfatório pela política da política e preparação de um candidato em campo, mas a vida pessoal do ajudante da campanha e tudo o resto fazem deste um filme pouco memorável.
O que eu queria mesmo dizer, eram as palavras da Joana:
Mas que bela tarde! Foram, impossivelmente, os 140 minutos mais bem passados da minha vida. No decorrer das repetições dos dias que começam e acabam e começam e acabam da mesma maneira, fui invadida por um vasto manancial de emoções, da sonolência à raiva. Reconheço beleza neste Cavalo de Turim, mas o que eu vi foi uma sequência de fotografias a preto e branco. E voltei a vê-las. E baralha, distribuí e sai o mesmo jogo ainda assim. É uma repetição. Mas são bonitas as fotografias.
Sei que pode não ser uma opinião agradável de acordo com as normas do bom gosto e do bem falar, e compreendo que o sustento da história seja o poder do homem sobre a natureza, que findos os sete dias, se vê não ser nenhum, mas que paciência que é preciso! Isso, e coragem para ver este filme, e eu, tal como o outro, (sobre)vivi para contá-la. E comi pipocas durante a sessão.
Bem espremido eram cinco minutos de um filme qualquer, e podia-se resumir que era um dia de vento em que um cavalo não queria trabalhar. Mas foi mais, e dei por mim a fazer apostas cá com os meus botões, ao lado em que o cabelo da filha ia cair com o vento. Para ver pessoas a descascar batatas ajudava a minha mãe com a ceia de Natal! Há um plano longo em que decidem abandonar a casa e caminhar pelo monte acima, para lá da árvore, mas abandonam a ideia e regressam a casa pelo mesmo caminho. Disseram-me ser uma cena bonita, e eu suponho que sim, que adormeci e só os vi a regressar. A rever em dias cinzentos de sonolência.
Mas vou antes dizer isto:
 O esmagador peso do céu, último resguardo de todos os que estão abaixo de um Deus desconhecido, proporciona um ambiente hostil para receber o espectador, não obstante o deleite visual que é este filme-monumento, obra equidestante da luz e da escuridão. O canto do cisne em húngaro de Béla Tarr, um realizador que não engana ninguém, pois é garantido o conteúdo e a forma da sua criação, é uma janela semicerrada à esperança, um profundo estado depressivo mas resignado do apocalipse com que as personagens coabitam e cujo aprofundamento e imersão total se avizinha.
 O único ano mencionado é o de 1889, aquando a repescagem de Nietzsche para uma alegoria que envolve um cavalo. Esse cavalo, que desistiu mais cedo do que todos, compõe uma família, dê por onde der, com um pai e uma filha, que não se relacionam, apesar de ocuparem o mesmo espaço físico durante os rotineiros dias que dura a sequência. O fim dos dias aproxima-se, e a ideologia que seguiram em tempos, deixou-os sozinhos e isolados, com um poço que há-de secar, e um cavalo que há-de morrer, destino que os perseguirá na escuridão que se vai abater. A violência do vento cortante em espiral, enrodilhado com o sussurrar viperino, perspectivam as sombras que se abatem sobre este ermo que serve de morada à infortuna família desregulada. A compreensão que a filha tem em relação ao cavalo não é espelhada na sua relação com o pai, de presença altiva, como manda a tradição. Mas eles reencontram-se, por turnos, diante da janela da casa. E assusta não haver um resguardo para nos proteger do apagão final, essa imensa eternidade que se vai abater sobre o casebre do filme, e o resto do mundo. Mas a história desta família é também a da humanidade? Ou é uma charada sem significado? Estará a chave na natureza premonitória da raça cigana, que se recusa a construir telhados?
 A partida dos três personagens, influenciada pelo agravamento do clima, tem como eco o retorno imediato. A câmara, estanque, sabe que a família vai voltar. O destino estava traçado há muito, e não podem fugir dele. As pessoas são frágeis e esfarelam-se tal como as batatas cozidas que a família ingere todos os dias sem excepção. O pai diz pouco e recebe uns favores da filha. O pai é também o outro pai da civilização ocidental, é Deus, calado, ausente, incapaz. Tudo o que há para dizer, é dito em segundos. A força que é preciso para todas as tarefas no meio rural, está em falta.
 Para além do silêncio interpelado pelo vento assombroso, que deixa a narrativa sem resposta, sobressai a inesquecível, termo empregue após deliberação, fotografia. O plano-sequência com a bengala da música circular e hipnotizante (Mihály Víg). As inúmeras referências estéticas retiradas de séculos de pintura, que compõe tanto os planos mais memoráveis do filme, como aqueles que se perdem pela sua aparente (e falsa) vulgaridade, são um manancial por explorar, embutido nos cenários construídos para a ocasião. O tempo despendido a cada plano é recompensado pelos actores. Cada ruga do pai fica marcada no espectador, cada músculo do cavalo, cada fio de cabelo da filha.
 Agora, o cinema de Tarr apagou-se. Mas as sementes que deixa, hão-de ver a luz do dia. Quanto a este filme, não há dúvidas, foi o fim. Não sobra luz e as pedras só terra têm de companhia, para sempre.
Publicado como acompanhamento à exposição retrospectiva, Photography de Richard Prince é um fantástico livro de fotografia. Prince, que divide bastante as águas, tornou-se famoso pela apropriação ou roubo de imagens e ícons. Figura de proa de uma arte que rouba em vez de referenciar, e com toda a legitimidade. No seu limite, pode-se dizer que as fotografias mais famosas de Prince, são fotografias de outras fotografias, o que suscita discussões bastante acesas. O seu estilo percorre todo o imaginário Americano, desde os cowboys à cultura das motas de estrada, até à influência da publicidade e a reinterpretação da propaganda disassociada dos productos. Contém uma grande variedade de séries e serve como barómetro pessoal de cada um relativamente a Prince, pois estão aqui todos os trabalhos mais famosos.
De uma geração já estabelecida, Wolfgang Tillmans é um valor seguro da fotografia, e esta monografia editada pela Phaidon assim o comprova, com uma excelente apresentação. O estilo de Tillmans tem como principais temas a juventude e a rua, e é notória uma evolução que acompanha a expansão, dos retratos à paisagística. Vários períodos e acompanhado por entrevistas e recensões.
Fazendo uso de deformações nas pessoas, numa linhagem que cruza Botero com Muñoz, The Artist Who Swalloed The World foi uma exposição itinerante de Erwin Wurm, em que as pessoas ganham um traço desconcertante, partindo do princípio da maximização, onde carros, casas e pessoas são aumentadas. A força das imagens funciona até no papel e o tom crítico não sai descuidado no festival de cores vivas que Wurm usa. A monografia contém muitos trabalhos inéditos em diversos campos e é uma boa introdução ao Austríaco.
Ao longo de mais de duzentas páginas, Travelling 70-76 serve um período intermédio da vida do artista Americano Robert Rauschenberg, após a predominância dos materiais não convencionais combinados com a pintura, dando-lhe formas esculturais. Neste caso, a abstração mantém-se usando caixas de cartão. É curioso mas nada de espectacular.
Publicado pela Fundação Cupertino Miranda em conjunto com uma empresa de construção cívil, Cruzeiro Seixas é uma monografia dedicada ao surrealista Português. Simples e concisa, com vários exemplos dos desenhos, pinturas e escultura, serve o propósito de promover a obra do artista condignamente.
Parte de uma exposição na Holanda em 1996, Fuga Futuri de Alex Vermeulen contém uma série de experimentações visuais em variados suportes como fotografia, escultura, instalações ou performances, acerca do tempo. Uma cidade imaginária debaixo do gelo é o ambiente onde se dá uma epidemia que permite aos habitantes comunicarem telepaticamente. O trabalho é algo desafiante e curioso.
Realizado por Howard Hawks e baseado num musical, Gentlemen Prefer Blondes é um dos exemplos mais impressionantes da produção de Hollywood na época de ouro dos estúdios, em 1953. A história opõe Marylin Monroe e Jane Russell, começando com um admirador de uma bailarina que lhe oferece um anel após noites a admirá-la da plateia. Pela ingenuidade dela ou sorte dele, planeiam casar em França, levando uma outra bailarina na viagem. No navio vai uma equipa Olímpica, mas o noivo acaba por ficar em solo Americano. Dorothy (Jane Russell), no entanto, certifica-se que há entretenimento suficiente para a viagem, acostumando-se aos atletas e garantindo-lhe que a sua noiva está em boas mãos. Enquanto Dorothy se preocupa com o retirar cedo da equipa Olimpica para a cama, a amiga só quer saber da mina de diamantes de um idoso. A mulher de Sir Bickman traz no corpo o que parece ser a maioria da produção da mina, mas o marido não é o único homem a tentar impressionar Lourelei (Monroe). Mallone paga ao chefe de sala pela companhia das duas amigas ao jantar no navio, e fica mais próximo de Dorothy, percebendo que é estranho que duas amigas sejam de personalidades tão diferentes. Lourelei consegue que Sir Bickman lhe dê uma tiara de diamantes, o que traz problemas à chegada a Paris. Após terem gasto todo o dinheiro, Lady Bickman pede-lhe a tiara de volta. Em Paris, as duas amigas actuam e o noivo de Lourelei aparece, preocupado com a reputação com que ela ficou após o incidente do navio. Levada a tribunal, a hipótese de ser salva reside nele. Dorothy mascara-se de Lourelei e vai a tribunal, onde começa um número musical, que felizmente não são em grande quantidade durante o filme. Mallone, que é um investigador privado, vai ter com Sir Bickman e recupera a tiara que ele próprio roubara a Lourelei. Ela associa a felicidade a ter as coisas materiais, que consegue 'ser inteligente quando importa' e sempre consegue o casamento pelo dinheiro, casando Dorothy com Mallone ao mesmo tempo. Carisma, história concisa, muito bom.
Dos 34 estados Americanos em que é possível executar alguém por injecção ilegal, só 16 o fazem. Werner Herzog, como Europeu, é contra a pena capital, e para filmar Death Row foi necessário ser convidado por escrito pelo condenado e ser aceite pelo director da prisão. O primeiro episódio é focado em Hank Skinner, e 17 anos é o tempo que dura a espera de um homem que se diz inocente num triplo homicídio. A espera, o processo com os guardas faz parte da rotina, e de seguida, Herzog vai recriar o crime à cidade do Texas onde ele se deu, aparecendo algumas pessoas envolvidas nele, a história do filho que também agora tem um problema com a lei, até ao jornalista. Skinner mantém a inocência e o caso começa a virar a seu favor, depois de já ter estado na sala para ser executado. Os sonhos que ele tem lá dentro relacionados com a vida exterior esvaem-se enquanto aguarda o teste de DNA e uma possível data de execução. James Barnes em 1998 foi sentenciado pela morte da mulher, que admite como acidente, e depois confessou outro assassínio anterior. Há oito anos que não sente a chuva, e o episódio é bastante chato pela conversa ser principalmente com o advogado e pessoas ligadas ao apelo. As entrevistas com o condenado, são interessantes, principalmente pela reacção do pai dele e dos crimes inéditos que confessa. Apesar de querer a execução, ainda aguarda. O terceiro episódio começa com um jovem que morreu oito dias depois da entrevista inicial, no entanto é com Joseph Garcia que continua. No caso dele, é uma vítima do sistema judicial pela severidade das penas que levou. Ele estava numa fuga com outros sete, de uma prisão, com George Rivas como líder, igualmente com uma pilha de penas para cumprir. Rivas foi o autor de quatro tiros a um policia, crime de que se arrepende. É principalmente sobre a descrição dos passos que levaram ao homicídio numa loja que roubaram ao escapar, e sobre a maneira como lidam isso, e a pena de Garcia, ainda que não tenha disparado, pois todos os fugitivos foram condenados a prisão perpétua pelo seu envolvimento na fuga. Rivas foi executado, o que ele considerava liberdade, dadas as dezenas de penas perpétuas que tinha, incluindo por amarrar policias, e Garcia ainda espera. Trabalho digno e humano de Herzog, sempre inquisidor e não intrusivo.
O Romeno Andrei Ujica fez um filme muito curioso com The Autobiography of Nicolae Ceausescu em 2010. Partindo de imagens de arquivo da televisão estatal do seu país, o filme entrega ao ditador toda mobilidade para oferecer uma versão da sua vida no partido Comunista Romeno. Começa com a reação dele às acusações de vinte e cinco anos de opressão, e, sem qualquer tipo de narração sonora, o filme sustém-se. É uma experiência curiosa, ainda assim, as mais de duas horas e meia de filme constituem um teste. Mesmo que fosse a mesma peça adaptada à realidade Portuguesa, era longo demais.